4# BRASIL 23.10.13

	4#1 A MUSA DO BICHO ENTRA NA POLTICA
	4#2 COMO DERROTAR O EXRCITO DO PCC
	4#3 R$ 1,8 MILHO SACADO DOS TRILHOS
	4#4 ACIO CHAMA O JOGO
	4#5 A BATALHA NORDESTINA

4#1 A MUSA DO BICHO ENTRA NA POLTICA
Bonita e vaidosa, a empresria do ramo de biqunis Andressa Mendona  a nova arma do bicheiro Carlinhos Cachoeira para voltar ao centro do poder
Josie Jeronimo, de Goinia

A BELA - Na campanha, ela ser apresentada como empresria e assistente social 

Dona de uma loja de lingeries e biqunis, a desinibida empresria Andressa Mendona, 31 anos, no hesita em exibir seus atributos fsicos para fazer propaganda dos produtos que vende (a foto acima est a para provar isso). Andressa adora mesmo os holofotes. Casada com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, ela sempre fez questo de dar demonstraes explcitas de afeto. Ao visitar o marido na cadeia, costumava mim-lo com afagos  diante dos prprios agentes penitencirios. Numa ocasio, enquanto o contraventor prestava depoimento, chamou a ateno dos policiais por passar longos minutos conferindo fotos em um tablet. Detalhe: eram sempre retratos dela prpria, em situaes das mais diversas. Vaidosa, bonita e dona de um corpo, Andressa agora quer entrar na poltica. H alguns dias, filiou-se ao PSL de sua terra natal, Goiatuba, cidade a 150 km de Goinia. Seu objetivo  candidatar-se a deputada federal em 2014. Mas a nova e surpreendente empreitada da musa do bicho, apelido que ganhou depois de casar com Cachoeira, no tem nada a ver com o apreo dela pelas cmeras de tev. O que est por trs de sua candidatura  um plano elaborado pelo bicheiro para se reaproximar do centro do poder. 

 Devastados pela divulgao das escutas da Operao Monte Carlo, parlamentares ligados a Cachoeira passaram os ltimos dois anos no limbo poltico ou, como ele, na cadeira reservada aos rus. Sem poder contar com aliados de imagem j desgastada, o bicheiro quer voltar  cena poltica de Gois para remontar sua bancada no Congresso. O trampolim para isso ser a musa Andressa Mendona. Ela vai representar o eleitorado feminino, porque mostrou ser uma pessoa de fibra, afirma o presidente do PSL de Gois, Drio Paiva. Andressa ser apresentada como empresria dedicada, uma assistente social meiga e uma mulher forte que enfrentou os dissabores de se casar com uma figura de vida polmica.

Alm de usar a mulher para chegar a Braslia, Cachoeira pretende aliar-se a siglas nanicas e, assim, ganhar musculatura para seu projeto. Ele j se aproximou do PMN e do novato Solidariedade. Sua meta  formar uma frente partidria de pelo menos seis legendas. A cada 170 mil votos conquistados, a frente far um deputado federal. Fora da frente partidria das siglas nanicas, o PT de Gois tambm mantm relaes com o contraventor. O favorito para a vaga do Senado que ser renovada no ano que vem  o prefeito de Anpolis, Antonio Gomide (PT), citado nas investigaes da Operao Monte Carlo. O irmo de Gomide, o deputado Rubens Otoni (PT-GO), chegou a ser flagrado em vdeo negociando com Cachoeira apoio para sua campanha poltica. Gomide foi procurado pela reportagem de ISTO, mas no quis dar entrevista.

Pouca gente se atreve a falar mal do contraventor ou rejeitar a sua presena nos palanques. Nas eleies municipais do ano passado, Cachoeira estava preso e fez minguar a corrida eleitoral de muitas cidades de Gois. O bicheiro sempre foi um generoso doador de campanha e o mote das investigaes da Polcia Federal contra ele foi a retribuio dos recursos na forma de contratos generosos com governos. Alm da ascendncia que mantm sobre obras da construo civil e o dinheiro de suas empresas da indstria farmacutica, Cachoeira dispe de um considervel grupo de comunicao para colocar  disposio de seus apoiados polticos. No nome de seu ex-cunhado, o bicheiro tem uma empresa de publicidade e propaganda, uma rdio e uma emissora de televiso. Agora, ele tem tambm uma bela mulher para atrair votos  e lev-lo de volta ao poder.


4#2 COMO DERROTAR O EXRCITO DO PCC
A faco criminosa que nasceu em So Paulo hoje  um problema nacional.  preciso uma ao articulada de todas as foras de segurana e do poder judicirio para combat-la, alm de endurecer as regras na priso, como fizeram os italianos com os mafiosos
por Wilson Aquino e Michel Alecrim

No topo do organograma da maior rede de crime organizado do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC), est a Sintonia Final Geral, composta pela cpula da bandidagem. Por apenas uma letra, a denominao difere de sintonia fina, a palavra que rene a principal alternativa, segundo especialistas ouvidos por ISTO, de combate  poderosa mfia nascida no presdio de Taubat, em So Paulo, nos anos 1990, que, hoje, atua em 22 das 27 unidades da federao e domina presdios no Pas todo, com ramificaes em pases como a Bolvia e o Paraguai. Em um milimtrico estudo e cruzamento de dados, o Ministrio Pblico de So Paulo mostrou a fortaleza na qual o PCC se transformou, sob as barbas de autoridades paulistas que negligenciaram o monstro em seu nascedouro. Essa mfia, hoje, no  mais um problema s de So Paulo. Virou um problema brasileiro. E a sintonia urgente  justamente uma ao coordenada e inteligente de todos os poderes em prol de uma ampla reestruturao do sistema penitencirio e de segurana.

A principal concluso a que chegamos depois desse inqurito  que o PCC  uma organizao nacional e, como tal, o governo federal no pode ficar fora desse problema, diz o socilogo Luiz Flvio Sapori, professor da Pontifcia Universidade Catlica de Minas Gerais (PUC-MG). Ele defende uma fora-tarefa composta pela Polcia Federal, Receita Federal, polcias estaduais e MPs estaduais para atacar o poder de articulao e de financiamento dessa quadrilha, que fatura R$ 120 milhes por ano, basicamente com trfico de drogas.

 Uma das alternativas pode ser o fortalecimento da Secretaria Nacional de Segurana Pblica (Senasp), que perdeu importncia estratgica. Reduziram os investimentos e destruram as possibilidades de se criar um sistema nico de segurana pblica, com um banco de dados que pudesse ser compartilhado por todos os segmentos que enfrentam o crime, diz o antroplogo Paulo Storani, ex-oficial do Batalho de Operaes Especiais (Bope) do Rio de Janeiro.

Inventrio do crime - As armas, os carros e a contabilidade dos bandidos Andres Vera e Pedro Marcondes de Moura

ISTO teve acesso a mais de 70 documentos da contabilidade do Primeiro Comando da Capital (PCC) de So Paulo. De relatrio sobre a compra de metralhadora de guerra a levantamento da frota de carros da faco, os nmeros revelam o lado empresa da organizao criminosa. Maconha  morango. Advogado  gravata. Mensalidade  cebola. E assim segue uma infinita e confusa lista de nomes trocados que o PCC emprega, tanto nas ruas como em seus documentos internos. Nesse ltimo caso, arquivos de Word e planilhas de Excel com o cotidiano contbil da maior faco criminosa do Pas. Apreendidos ao longo de operaes da Polcia Militar, eles so parte importante de uma investigao de trs anos conduzida pelo Ministrio Pblico e pela Polcia Federal. O vocabulrio ali pode soar estranho a uma grande empresa legalizada. Os nmeros, no.

 o que prova, por exemplo, o arsenal de 88 fuzis, 42 pistolas, quatro rifles, trs metralhadoras, uma dinamite e 178 pentes de munio. Eis o balano do setor das ferraduras. Trata-se do armamento de parte do PCC paulista em outubro de 2011. O poder de fogo  grande a ponto de desprezar o revlver 38, mais comum e barato, nas estatsticas oficiais. Na coluna dos fuzis, no entanto, a profuso de letras e nmeros  digna de quartel militar  os modelos AK-47, AR-15 e M-16 esto entre os preferidos. No relatrio do ms seguinte, novembro de 2011, o bando vai s compras: a lista ganha 12 fuzis e 25 pistolas. O PCC tem inventrios de dar inveja a muita empresa legalizada. Outra planilha, tambm de outubro de 2011, segue os moldes de uma locadora de carros. O ttulo  sugestivo: setor dos ps de borracha. So 55 carros e oito motos na frota do crime. Ao lado de Celtas e Corsas, chamam a ateno uma Cherokee blindada e um micro-nibus. O arquivo descreve tudo. Motorista responsvel, ano de fabricao, existncia de documentao e estado de conservao. Sobre um Vectra GT sem documento, h uma nota de rodap: estava com o Dr. Rogrio, foi mandado para os gravatas e o recibo no veio. Gravatas, como se sabe, so os advogados que trabalham para a faco. Apenas em setembro de 2011, como mostram os documentos a que ISTO teve acesso, eles receberam R$ 220 mil das mos do PCC. Os defensores dos criminosos tambm tm um setor prprio, o setor dos gravatas. So parte importante do extenso universo da contabilidade da faco, ao lado das ferraduras e ps de borracha, entre outros.

No setor do progresso, por exemplo,  controlado todo o dinheiro do trfico de drogas. Listadas sob o codinome de frutas (em uma planilha igualmente colorida), as drogas so o carro-chefe do faturamento. Segundo estimativa do Ministrio Pblico, rendem R$ 8 milhes mensais ao PCC. H tambm um setor dedicado apenas ao cigarro. Menor, mas no menos importante. A venda de maos nos presdios paulistas movimenta mais de R$ 100 mil mensais. O valor  baixo se comparado ao lucro dos entorpecentes, mas revela o poder de influncia da faco nas prises de So Paulo. Na cadeia, o cigarro representa uma importante moeda de troca entre os detentos. Um documento revela, em valores e quantidade, quanto entrou e quanto saiu de 43 prises paulistas. A lista  grande. Vai de centros de deteno provisrios, como Osasco e Vila Prudente, at penitencirias para detentos especiais, como a de Trememb, no interior de So Paulo. Segundo o Ministrio Pblico, o PCC controla 90% dos presdios de So Paulo. Por fim, h ainda o curioso setor da cebola. Por cebola entenda-se a mensalidade de R$ 600 que os integrantes devem pagar aos lderes regionais do trfico. Novamente, o arquivo  preciso e rico em detalhes. Em um documento de novembro de 2011, a faco lista 25 nomes de grandes devedores e um montante de R$ 2 milhes no pagos. Em destaque, h a descrio de prazo de pagamento e a situao de cada um: ainda no assumiu, foi preso pela Rota ou foi roubado em casa. Em alguns casos, membros do grupo tentam intervir em favor de amigos ou familiares na mira, como mostra uma ligao telefnica interceptada pela polcia. Onde j se viu querer cobrar uma dvida de uma criana de 13 anos? T com brincadeira?, diz um traficante.

Os documentos obtidos no revelam apenas parte da dinmica contbil da maior organizao criminosa do Pas em seu quartel-general, o Estado de So Paulo. Entre as planilhas de Excel reunidas pela investigao, h tambm mensagens trocadas entre lderes da faco e seus subordinados. So os chamados salves. Alguns trazem mensagens genricas para motivar os integrantes. Frases como:  necessrio se doar em tempo de dificuldade. Logo em seguida, o texto pede responsabilidade aos bandidos menos assduos. 

A vida do crime sempre foi louca. No aceitamos desculpas.A mensagem, sem data,  assinada pela Sintonia Final, cpula do PCC liderada por Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. Sob seu comando, o grupo atingiu mais de 11 mil integrantes e expandiu as operaes para 22 Estados brasileiros. A disciplina tem que ser seguida para o bom andamento da famlia, conclamava, ainda, o comunicado da liderana criminosa. Famlia, neste caso, diz respeito a outro tipo de lao  o do crime organizado. 

 No entanto, talvez ainda mais urgente  eliminar a fora que a faco conquistou dentro das cadeias. Graas  frouxido dentro dos presdios, o grau de articulao entre os bandidos  imenso e, por isso,  necessria atuao conjunta de todos os Estados. Uma dos maiores autoridades em crime organizado no Pas, o desembargador aposentado do Tribunal de Justia de So Paulo, ex-secretrio Nacional Antidrogas (1999/2000) e fundador do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Cincias Criminais, Walter Maierovitch diz que as penitencirias brasileiras devem adotar o mesmo rigor que os italianos para isolar mafiosos. L, os presdios tm cmeras, as visitas s acontecem atravs de vidro e com microfone, mesmo com advogado, tudo  gravado e a polcia penitenciria  especializada, capaz de analisar todos os sinais, explica. As medidas foram aprovadas pela Corte Europeia de Direitos Humanos, que entendeu que o rigor no representa violao de direitos fundamentais em funo da grave ameaa  populao e ao Estado Democrtico de Direito.

Durante anos, as administraes dos governos paulistas minimizaram o poder do PCC, que ganhou musculatura, graas  ausncia do Estado. No  possvel que o governo de So Paulo conseguisse manter pacificada e estvel uma populao carcerria de quase 200 mil pessoas em unidades hiperlotadas, sem condies bsicas de higiene, sade nem alimentao decente, afirma a sociloga Camila Nunes Dias, do Ncleo de Estudos de Violncia da Universidade de So Paulo (USP) e autora de PCC  Hegemonia nas Prises e Monoplio da Violncia. 

Vista grossa ao problema permitiu que a organizao se conectasse com outras faces criminosas, como o igualmente temvel Comando Vermelho (CV), no Rio  e, dessa associao, o crack chegasse s bocas de fumo cariocas. Foi o PCC que fez o Fernando Beira-Mar (chefe do CV, preso) mudar de ideia. Ele barrava o crack para evitar mortes de seus soldados do trfico, que tambm so viciados, diz Storani, ex-integrante do Bope. 

 O procurador de Justia Antonio Carlos Biscaia, ex-secretrio Nacional de Segurana Pblica no governo Lula, afirma que a investigao do Ministrio Pblico paulista interrompe uma cadeia criminosa muito forte. Biscaia, que ajudou a mandar para a cadeia os chefes do jogo do bicho do Rio, em 1993, acredita que o PCC tenha se ramificado para outros Estados seguindo a mesma lgica dos bicheiros: lucro alto e aliados comprados dentro do poder oficial. O crime organizado, seja trfico de drogas ou bicho, pratica crimes para auferir lucros e alcana o poder cooptando integrantes de instituies policiais, e outros acima, explica.  fundamental identificar quem seriam os integrantes do crime organizado dentro do prprio Estado, ou seja, identificar quantos agentes pblicos esto entre os 11 mil integrantes do PCC.

As escutas telefnicas do pistas importantes, mas no devem ser superdimensionadas, segundo o socilogo Ignacio Cano, membro do laboratrio de anlise da violncia da universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV-Uerj). No  porque uma pessoa fala alguma coisa que isso deve ser considerado verdade. Para se ter certeza, diz,  necessria a convergncia entre muitos grampos. O suposto plano para matar o governador de So Paulo (Geraldo Alckmin)  fundamentado em evidncias que no so evidentes, so frgeis, diz o socilogo. Gravaes tambm registraram conversas de criminosos planejando ataques durante a Copa do Mundo, em 2014, se a cpula da faco fosse transferida para o Regime Disciplinar Diferenciado, muito mais duro com os presos. Mais do que nunca, a sintonia fina tambm  necessria para saber descartar factoides e concentrar no que realmente representa perigo, os tentculos do PCC na sociedade brasileira.


4#3 R$ 1,8 MILHO SACADO DOS TRILHOS
Documentos revelam que dirigente da CPTM nas gestes dos tucanos Mrio Covas e Geraldo Alckmin recebeu propina de empresas do cartel da rea de transportes
Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Srgio Pardellas

ACUSAO - Joo Roberto Zaniboni, ex-diretor de operaes da CPTM: ele teria recebido pelo menos US$ 200 mil em propina 

As investigaes sobre o esquema de corrupo que operou nos trilhos paulistas avanam na direo de agentes pblicos das gestes tucanas de So Paulo. Integrantes do Ministrio Pblico e da Polcia Federal dizem que mais de uma dezena de executivos de estatais que passaram pelos sucessivos governos do PSDB no s foi omissa como tambm participou das fraudes e do superfaturamento de contratos firmados com o Metr paulista e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Documentos e depoimentos obtidos nas ltimas semanas j apontam os nomes de servidores estaduais que se beneficiaram financeiramente das tramoias.  o caso de Joo Roberto Zaniboni, diretor de operaes da CPTM entre 1999 e 2003 (gestes Mrio Covas e Geraldo Alckmin). De acordo com provas enviadas por autoridades suas, uma conta de Zaniboni na Sua foi abastecida com US$ 836 mil, o equivalente a R$ 1,8 milho, no perodo em que ele era dirigente da estatal. Ao menos US$ 200 mil foram pagos a ttulo de propina pelas empresas do cartel em troca da obteno da conquista de certames ou aditamentos.

Chamam a ateno do Ministrio Pblico e da Polcia Federal a correlao entre as decises tomadas pelo ento diretor de operaes da CPTM Joo Roberto Zaniboni e os depsitos feitos em sua conta fora do Pas. A dinheirama ingressava logo aps ele assinar aditamentos em contratos firmados pela CPTM e empresas acusadas de integrar o cartel dos trens. Foram ao todo cinco canetadas, que representaram uma elevao de despesas de cerca de R$ 12 milhes ao errio paulista. O ex-dirigente da estatal repassou, em 2007, parte do dinheiro que recebeu para uma conta em nome da filha nos Estados Unidos. Segundo sua defesa, o valor foi recebido em troca da prestao de servios de consultoria realizados antes de sua entrada no governo.

Um dos aditamentos autorizados por Zaniboni ocorreu em 20 de outubro de 2000. Alm de alterar o prazo do contrato, a manobra ampliou em 24,8% o valor do servio acertado com a Daimler Chrysler Rail Systems para a manuteno de trens. Em outro aditamento, realizado em 20 de dezembro, um acordo de prestao de servio similar assinado com a Alstom foi reajustado para cima em cerca de R$ 4 milhes. Na lista das empresas beneficiadas pelos aditamentos aparecem ainda outras companhias apontadas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econmica (Cade) como integrantes do cartel que atuou em So Paulo.

As conexes entre Joo Roberto Zaniboni e a mfia dos trilhos paulistas, conforme a investigao, no param por a. Ao rastrearem a origem dos depsitos em uma conta mantida por ele no banco Credit Suisse, que leva o nome de Milmar em uma homenagem a familiares, autoridades identificaram um depsito de US$ 103,5 mil, efetuado em 27 de abril de 2000. O valor foi transferido de outra conta do Credit Suisse. Identificada pelo cdigo 524374 Rockhouse, a conta pertence ao lobista Arthur Teixeira, principal operador do esquema de corrupo. As remessas teriam como origem os caixas do conglomerado francs Alstom e foram efetuadas por meio de uma sofisticada engrenagem financeira, usada tambm pela Siemens, como revelou ISTO em julho.

SANGRIA PBLICA - O cartel que superfaturou contratos foi criado na gesto do ex-governador do PSDB Mrio Covas 

Para no deixar rastros, a multinacional francesa e sua subsidiria no Brasil firmaram um contrato de fachada de consultoria com a offshore uruguaia Gantown Consulting S/A, controlada por Arthur Teixeira. Na prtica, Teixeira fazia apenas o papel de intermedirio no pagamento de propina da empresa a polticos e servidores pblicos. O MP e a PF ressaltam que, nos contratos acertados entre a Gantown e a Alstom, aparecem licitaes sobre as quais Zaniboni deu aditamentos. Na ltima semana, diante das denncias, o governador de So Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), declarou que seja funcionrio ou ex-funcionrio haver tolerncia zero a essas prticas criminosas.


4#4 ACIO CHAMA O JOGO
A unio de Marina Silva e Eduardo Campos no tira do senador tucano a condio de principal candidato da oposio e o PSDB define a estratgia de campanha para os prximos meses
Izabelle Torres

AO - Pesquisas mostram o crescimento de Acio Neves, que planeja antecipar programa de governo 

Depois de voltar casado dos Estados Unidos, na ltima semana o senador Acio Neves (PSDB-MG) reafirmou a posio de principal candidato da oposio na sucesso presidencial. Em almoo na quarta-feira 16, o senador se reuniu com 44 dos 46 deputados federais tucanos e traou a estratgia para os prximos meses. As ltimas pesquisas mostram que a inesperada unio de Marina Silva com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), permitiu um crescimento na candidatura do socialista, mas revelam tambm que a sada de Marina da disputa direta eleva Acio  condio de mais forte adversrio da presidenta Dilma Rousseff, com 21% das intenes de voto contra 15% do pernambucano. Ainda temos um ano pela frente, mas o certo  que as pesquisas mostram que 60% dos brasileiros no querem a continuao de Dilma no poder, disse Acio. Tenho a convico de que quem for para o segundo turno contra a candidata do PT sair vitorioso, completou, logo depois do almoo com os deputados. Durante o encontro, Acio enfatizou que os nmeros so animadores, mas no permitem nenhum tipo de acomodao. E, diante da movimentao feita por Campos, o mineiro resolveu antecipar para dezembro as linhas bsicas do programa de governo que os tucanos oferecero ao Pas na campanha de 2014. Os brasileiros querem um novo projeto e somos os mais capacitados para elabor-lo e coloc-lo em prtica, afirmou. 

 Alm de antecipar o debate sobre as propostas concretas para o Brasil, Acio planeja fazer intensificar os ataques ao PT e ao governo Dilma, e se colocar como candidato efetivamente contra o governo, sem se indispor com Eduardo Campos e Marina Silva, que procuram se colocar como alternativa ao PT, mas sem se caracterizarem como oposio. A poltica de boa vizinhana com Pernambuco, no entanto, no implica em facilitar a vida de Campos. No encontro, Acio ressaltou que o PSDB no deve tolerar os palanques duplos nos Estados. Um recado ao governador paulista, Geraldo Alckmin, que trabalha com a possibilidade de ter o PSB como aliado para a sua reeleio. No vamos tolerar que um governador nosso esteja apoiando a candidatura de Campos, disse um dos parlamentares presentes no encontro. Palanque duplo  coisa de corno, brincou um deputado de So Paulo. A mesma ideia se aplica em Minas. Os tucanos j descartam a candidatura do prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), ao governo estadual com apoio de Acio. A grande concluso  que temos chances de crescer muito ainda. Acio no  conhecido de todos os brasileiros, mesmo assim aparece bem nas pesquisas. O PSDB est consolidado no papel de oposio e isso conta pontos, diz o lder do partido na Cmara, Carlos Sampaio (SP).

PALANQUES - Nova estratgia de Acio tenta evitar que tucanos tenham apoios duplos nos Estados 

Mas no so apenas os nmeros das pesquisas que colocam Acio em posio privilegiada nessa pr-disputa eleitoral. Em todas as seis eleies diretas para presidente realizadas aps a democratizao, o PSDB s ficou fora da primeira, em 1989. Ganhou duas no primeiro turno e passou para o segundo turno nas outras trs. Em nenhum caso o partido teve menos do que 35% dos votos. Hoje, o PSDB governa 47% da populao brasileira em oito Estados  nenhuma legenda tem dimenso comparvel  e possui mais de 700 prefeitos Brasil afora. Num pas onde candidatos se fazem  e desfazem  durante o horrio eleitoral de rdio e televiso, o PSDB conta com perspectivas animadoras. Possui sozinho direito a um minuto e 51 segundos, quase o dobro do PSB de Campos. Se as tendncias se concretizarem, o recm-criado Solidariedade, que se inclina a fechar acordo com Acio, tem a oferecer um minuto a mais  candidatura tucana, alm do tempo do histrico aliado DEM, de 56 segundos, e dos 27 segundos do PPS. Temos a vantagem de uma estrutura consolidada e a identidade definida como oposio ao atual governo. No acho mesmo que estamos em desvantagem. Pelo contrrio, nossas chances aumentam sem uma candidatura polarizada, disse Acio, em entrevista  ISTO.

 Na avaliao dos tucanos, a presena de Campos e Marina tem um efeito til  candidatura de Acio. A disputa concentrada apenas entre candidatos do PT e do PSDB leva o debate eleitoral  discusso sobre os legados dos ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso. Essa tem sempre se mostrado uma batalha desfavorvel para os tucanos, j que Lula  o mais popular poltico brasileiro da histria, enquanto Fernando Henrique, mesmo tendo deixado uma herana positiva, saiu do Planalto com ndices negativos de aprovao. Com a entrada de novos protagonistas, tanto Campos como Marina iro competir com Dilma Rousseff pela herana de Lula com o argumento legtimo de que os dois integraram seu Ministrio. Isso explica por que Acio orientou seu exrcito a seguir a linha de apontar falhas do governo e lembrou que est na hora de demarcar territrio, condenando a ideia anterior de construir palanques duplos aos candidatos presidenciais do PSDB e PSB.

Durante o encontro da semana passada, outro aspecto inevitvel da aliana entre Marina e Campos foi considerado vantajoso para os tucanos: o envelhecimento de todo fato novo na poltica. A experincia ensina que a alegria dos recm-casados do mundo poltico tem muitas semelhanas com os casamentos da vida real, quando os cnjuges debatem os bens da famlia. No PSDB, aposta-se que as diferenas polticas entre Campos e Marina devem acentuar-se nos prximos meses. Enquanto Campos procura uma aproximao importante com o agronegcio, coerente com seu perfil poltico e com o crescimento eleitoral, Marina trabalha em direo oposta, como fez ao esvaziar a candidatura-smbolo de Ronaldo Caiado (DEM-GO). Na oposio a um governo que administrou uma das mais baixas taxas de crescimento, desempenho que far da economia um assunto obrigatrio na campanha, Acio tem mais condio do que Campos (e Marina) de apontar as mazelas atuais da economia. Na semana passada, quando Marina acusou Dilma Rousseff de ter abandonado o trip que garantiu o crescimento econmico  supervit primrio, cmbio flutuante e metas de inflao , Acio lembrou, com todo direito, que essa frmula nasceu nas fileiras do PSDB, que deve colher os louros pela ideia. 


4#5 A BATALHA NORDESTINA
Entrada do pernambucano Eduardo Campos na corrida presidencial embaralha a disputa pelos votos da regio e obriga a presidenta Dilma a lanar novas armas 
Cludio Dantas Sequeira

POPULAR - Dilma veste o gibo de couro, roupa tpica do vaqueiro nordestino, em visita ao Piau: em alguns Estados da regio, a presidenta tem 60% das intenes de voto 

Debruados sobre o mapa do Nordeste, com seus nove Estados, 37 milhes de habitantes e 26% do total de eleitores que iro s urnas em outubro de 2014, estrategistas de Dilma Rousseff e Eduardo Campos preparam-se para uma batalha decisiva. Em sua primeira disputa presidencial, Eduardo tem obrigao de exibir um bom desempenho na regio que  seu bero poltico. Para a reeleio de Dilma Rousseff, a conservao do eleitorado do Nordeste, que favorece o PT desde a vitria de Lula em 2002,  ainda mais essencial. O quadro agora  outro. Em 2010, quando Dilma e Eduardo Campos subiram unidos no mesmo palanque, o PT foi buscar votos em locais que devem se tornar de acesso muito mais difcil quatro anos depois. Na ltima eleio presidencial, o PSDB assistiu, impotente,  derrota de Jos Serra em Minas Gerais, o que permitiu a Dilma ganhar o pleito tambm na regio Sudeste por uma diferena de 1,6 milho de votos. Em 2014, com o mineiro Acio Neves como candidato tucano, essa performance dificilmente se repetir. Dilma vai precisar, portanto, de cada um dos 18,4 milhes de votos que recebeu na primeira vez na regio  e conquistar outros mais. No confronto entre os antigos aliados Dilma e Campos, pode-se prever uma batalha de longos punhais.

ISOLADO - Num movimento chamado de traio cirrgica, o PT afastou-se do grupo poltico do ex-presidente Jos Sarney 

A presidenta tem trunfos indiscutveis na regio. No Nordeste, o ndice de Desenvolvimento Humano avanou 41% em dez anos, contra 19% no Sul-Sudeste. Em julho, quando os protestos derrubaram a popularidade de Dilma em toda parte, a queda entre os nordestinos foi a menor do Pas. De acordo com pesquisas recentes, Dilma lidera as intenes de voto com mais de 40% da preferncia do eleitorado. Em alguns Estados do Nordeste, seus ndices chegam a 60%. Ao medir um hipottico segundo turno entre Dilma e Marina Silva, a mais popular candidata da oposio at seu partido cair no TSE, o DataFolha descobriu que a presidenta venceria, no Nordeste, por 51% a 37%. No cenrio atual, esses indicadores certamente valem muito. A dvida  se eles sero mantidos at o ano que vem.

Levado a um confronto que tentou evitar at o ltimo momento contra o pernambucano Eduardo Campos, o Planalto est convencido de que deve realizar um combate preventivo contra a tentativa do adversrio de ganhar musculatura. Desde a semana passada, as visitas ao Nordeste tornaram-se prioridade absoluta na agenda de viagens presidenciais. Dilma foi a Vitria da Conquista, no interior da Bahia, entregar 1.740 unidades habitacionais do Minha Casa Minha Vida. Depois, desembarcou em Salvador para assinar uma ordem de servio para o novo trecho do metr, ao lado do governador petista Jaques Wagner. Nas prximas semanas, a presidenta vai inaugurar uma adutora em Afogados da Ingazeira, no serto de Pernambuco, e a quinta etapa do Eixo das guas, no Cear.

RUPTURA - O governador do Cear, Cid Gomes, rompeu com Eduardo Campos no mesmo dia em que este se afastou de Dilma 

O primeiro ataque direto do Planalto a Eduardo Campos foi preparado no silncio dos bastidores polticos. Enquanto o candidato do PSB ensaiava passos para fora do governo, o Planalto se movimentou para trazer, para dentro, o senador Armando Monteiro (PTB), concorrente fortssimo  sucesso de Eduardo Campos. Um dos grandes empresrios do Estado, antigo presidente da Confederao Nacional da Indstria e criado numa famlia com ligaes histricas com Miguel Arraes (av de Eduardo Campos), Monteiro chega com credenciais de quem pode abrir caminho para sua prpria candidatura estadual, enquanto cria obstculos para o PSB no plano federal. Com esse adversrio, o Eduardo no poder sair de casa, sob o risco de perder votos domsticos, calcula um interlocutor de Dilma Rousseff. 

 Com tantas nuances, a campanha presidencial ser marcada por um xadrez poltico muito bem estudado. Um primeiro cuidado de Dilma consiste em evitar ataques diretos a Eduardo Campos. Convencido de que, se a eleio chegar a um segundo turno contra Acio Neves, o candidato do PSB poder ser levado a apoiar uma candidatura coerente com sua histria poltica, o PT no pretende tomar qualquer atitude hostil em direo a Campos. Por recomendao expressa de Lula, o adversrio no deve ser afrontado nem criticado. Os ataques ferozes ficaro para adversrios do PT de longa data, como o senador Jarbas Vasconcelos, do PMDB, no cenrio pernambucano, e Marina Silva, no plano federal. Aguarda-se, por parte de Campos, um comportamento tambm cauteloso. Ele dever evitar ataques diretos a Dilma e a Lula, pois calcula o risco que isso representaria para sua popularidade. Sem negar a paternidade do imenso canteiro de obras erguido pelo governo federal em Pernambuco, Campos vai lembrar que fez sua parte. Dir que sua gesto teve capacidade de criar condies para atrair a iniciativa privada e que soube aplicar bem os recursos vindos de Braslia.

Quando se olha o mapa do Nordeste, verifica-se que o PT conseguiu uma proeza importante, ao estabelecer duas fortalezas nas reas de fronteira com outras regies. Na linha divisria com o Sudeste, encontra-se a Bahia de Jaques Wagner, governador do PT que ficar no controle da mquina estadual at o ltimo dia do mandato, convencido de que, numa reeleio de Dilma, ter uma posio assegurada em Braslia a partir de 2015. Na fronteira com a regio Norte, fica o Cear dos irmos Cid e Ciro Gomes, que romperam com Eduardo Campos no mesmo dia em que este se afastou do governo. A questo, como sempre,  encontrar atores adequados para cumprir os papis necessrios. A popularidade de Cid Gomes  imensa no Cear. A de Lula  maior. Conforme o Vox Populli, 68% dos eleitores cearenses votariam no concorrente que o ex-presidente indicar.

RIVAL - Adversrio do PT de longa data, o senador do PMDB Jarbas Vasconcelos tentar tirar votos de Dilma em Pernambuco

Na vida real, no entanto, o nome mais popular para disputar o governo cearense  outro aliado, o senador Euncio Oliveira, ex-ministro, do PMDB de Michel Temer  e adversrio inconcilivel dos Gomes. Na tera-feira da semana passada, em reunio com o presidente do PT, Rui Falco, Euncio lembrou que aliou-se ao partido antes da chegada de Lula ao Planalto e que Dilma s teria a ganhar com sua candidatura. Se ele vencer a eleio, explicou, o Planalto no s ter um governador aliado, mas tambm o PT ganhar um senador a mais, j que o suplente, Waldemir Catanho,  petista filiado. So argumentos bem pensados, mas  difcil imaginar que possam ser acolhidos pelo Planalto, que se sente no dever de apoiar os irmos Gomes em qualquer deciso depois que eles se afastaram de um Eduardo Campos cada vez mais incmodo, sempre alerta para construir alianas com personalidades desgarradas do palanque de Dilma.

 Foi o risco de fornecer mais combustvel para o PSB que levou o PT a rever uma das mais polmicas alianas eleitorais de sua histria recente. Num movimento j chamado de traio cirrgica, o partido ensaiou uma ruptura no Maranho, afastando-se do grupo poltico do ex-presidente Jos Sarney, para apoiar Flvio Dino, do PCdoB, na disputa pelo governo do Estado. Pr-candidato de Sarney, o atual secretrio de infraestrutura, Luis Fernando Silva, ainda no decolou, enquanto Flvio Dino lidera as pesquisas com tanta folga que sua popularidade subiu at nos protestos de junho. Inconformado com o acordo, fechado em segredo, o veterano Sarney reagiu. Mobilizou seus aliados na cpula do Senado, ameaando bloquear toda iniciativa do governo na casa onde usufrui de um ambiente muito mais amistoso do que na Cmara. Ameaando uma adeso a Eduardo Campos, Sarney ligou para o prprio Lula, que, diante do risco, pediu para Dilma recuar. Num esforo para manter um palanque no Estado, a presidenta ainda trabalhava, na semana passada, com a alternativa de apoiar a candidatura de Roseana Sarney para o Senado, sem abrir mo da aliana com Dino. O problema  que o candidato do PCdoB, que j  cortejado pelo PSB de Eduardo Campos, manda dizer que tem pressa. A batalha deve ganhar intensidade nas prximas semanas.  

